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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Procurar Jesus e encontrá-lo


"Você está procurando Jesus de Nazaré, o Crucificado? 
Ele ressuscitou: ele não está aqui. (M 16,6)


* Por Irmã Therese Marie Boillat



Nós somos os discípulos do Ressuscitado! Não do homem crucificado! Às vezes é tão difícil acreditar no Ressuscitado... Então vamos olhar para as mulheres do Evangelho, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé.

Elas correm para o túmulo, este lugar de memória, onde elas serão capazes de reviver o passado, para lembrar de Jesus, este rabino tão extraordinário. É aqui que elas pensam em "encontrá-lo" ... pelo menos seu corpo. O túmulo? vazio! O primeiro passo nesse caminho para a Ressurreição é o seguinte: descobrir uma ausência e sentir uma grande dor. Onde é que ele está? Nós não vemos isso. Lá está ele, no entanto, aquele que parece ausente, está Vivo. Passar da primeira ausência - o corpo desaparecido no túmulo - para a segunda ausência que está gradualmente presente - a descoberta do Senhor Ressuscitado - as mulheres, e depois delas Pedro e João, tiveram que "mover-se", começar, correr, buscar, até mesmo obstinar... não há encontro com o Senhor se não há procura, busca do caminho, seja externo ou interno.

As mulheres em frente ao túmulo vazio não só estão chateadas e amedrontadas, mas totalmente perplexas. E agora, para onde ir, para onde procurar? Maria de Madalena chora desesperadamente. Sem solução, sem abertura, sem futuro... No entanto, é aqui que o Ressuscitado nos espera, onde ele nos espera quando tudo parece perdido. Não estamos também neste momento de uma pandemia que está perturbada, desencorajada e perdendo a fé?

Meditando sobre a forte experiência de ausência feita pelas mulheres, encontraremos forças para dar esse salto à fé. Como? Ouvindo o anúncio do evangelista São Marcos "Você está procurando Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ele ressuscitou: ele não está aqui. (M 16,6) E em São Lucas "Por que você procura os Vivos Entre os Mortos? Ele não está aqui, ele ressuscitou. Lembre-se do que ele lhe disse... (Lc 24.5-6).

Lembre-se... é trazendo as palavras de Jesus de volta aos seus corações que as mulheres gradualmente recebem a luz e entendem o significado da morte de Cristo e o significado de sua própria "morte". É a Palavra que nos ajuda a reler nossa história, a entender quem Jesus realmente é, sua misteriosa presença em nossas vidas, sempre... e especialmente nos "golpes duros".

Lembrar as palavras de Jesus, seus gestos, é o caminho para a Ressurreição para fortalecer nossa fé e nossa esperança. Lembre-se de suas palavras, invoque o Espírito Santo para se tornar "fogo" e "vida" em nós, adere a elas com alegria e coloque-as em prática... para viver como discípulos do Ressuscitado.

"Quando abrimos o livro da Palavra, Deus vem caminhar conosco", disse Santo Ambrósio.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

VIDAS NAS NOSSAS VIDAS

A FÉ SE ALIMENTA DE ESPERANÇA, E NAS PEQUENAS COISAS O SENHOR FALA DA VIDA.


Nesta manhã de sexta-feira da Paixão, com o Povo em Situação de Rua, a equipe da pastoral celebrou a PÁSCOA DA CRUZ.
 
O crucificado está entre nós... Do amor incondicional de Cristo presente em nossas lutas de cada dia, encontramos muitos rostos desfigurados, descartados e abandonados. Pedidos de paz, saúde e vida das pessoas é o sentido dado à crucificação de Cristo, em resgate de todos.
 
“ A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! ” ( Is 52,4)

A cruz de Cristo segue adiante de cada passo, eis a bandeira que se ergue em cantos e gestos de fé e compromisso da caminhada.


























 
Seu nome é Jesus Cristo e passa fome
E grita pela boca dos famintos
E a gente quando vê passa adiante
Às vezes pra chegar depressa a igreja
Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa
E dorme pelas beiras das calçadas
E a gente quando vê aperta o passo
E diz que ele dormiu embriagado
Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos
Seu nome é Jesus Cristo e é analfabeto
E vive mendigando um subemprego
E a gente quando vê, diz: "é um à toa
Melhor que trabalhasse e não pedisse"
Seu nome é Jesus Cristo e está banido
Das rodas sociais e das igrejas
Porque d'Ele fizeram um Rei potente
Enquanto Ele vive como um pobre
Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos
Seu nome é Jesus Cristo e está doente
E vive atrás das grades da cadeia
E nós tão raramente vamos vê-lo
Dizemos que ele é um marginal
Seu nome é Jesus Cristo e anda sedento
Por um mundo de Amor e de Justiça
Mas logo que contesta pela Paz
A ordem o obriga a ser de guerra
Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos
Seu nome é Jesus Cristo e é difamado
E vive nos imundos meretrícios
Mas muitos o expulsam da cidade
Com medo de estender a mão a ele
Seu nome é Jesus Cristo e é todo homem
E vive neste mundo ou quer viver
Pois pra Ele não existem mais fronteiras
Só quer fazer de todos nós irmãos
Entre nós está e não O conhecemos
Entre nós está e nós O desprezamos. 

Páscoa da Cruz...

Meditação para a 6a feira santa

* Por Marcelo Barros


Neste dia em que celebramos a Páscoa da Cruz, é uma graça divina mas também uma responsabilidade escutar a boa nova contida na narrativa da paixão de Jesus segundo João. (Jo 18 e 19). Ela se diferencia das outras versões da paixão. Enquanto os outros sublinham os sofrimentos de Jesus, o quarto evangelho prefere mostrar como, mesmo no meio de todo sofrimento, Jesus tem a iniciativa de ir dirigindo os acontecimentos. Enquanto Marcos, Mateus e Lucas conta que Jesus passou por um momento de agonia e angústia no Horto das Oliveiras, João conta que, no jardim de Getsêmani, é o próprio Jesus, que vai ao encontro dos soldados e toma a iniciativa de perguntar: A quem procurais? E quando os soldados dizem: Jesus de Nazaré, Jesus responde Sou eu, a mesma palavra que define o nome divino no Êxodo. Ao ouvir essa palavra, são os soldados que caem e Jesus que fica de pé. Do mesmo modo, é Jesus que se proclama a Pilatos como sendo testemunha da verdade do reino do Pai. De acordo com esse evangelho (e é o único dos quatro evangelhos que diz isso), foi ao inclinar a cabeça para expirar que Jesus nos entregou o Espírito.

Que sentido tem para nós hoje receber em nossas vidas esse evangelho com essa visão aparentemente pouco histórica e mais teológica da paixão de Jesus que o quarto evangelho chama de “exaltação do Filho do Homem”?

Quando o relato desse evangelho nos fala da cruz vitoriosa de Jesus é para nos ajudar a ver que o amor e a solidariedade podem tornar vitoriosas as lutas dos pequenos por justiça e por paz. Na cruz Jesus nos entrega o seu espírito que é o Espírito Santo para nos animar nessa luta para que venha a esse mundo o reino de Deus.

Adorar o Cristo na cruz é proclamar que Jesus morreu na cruz para que todos possam viver e nunca mais ninguém morrer na cruz. Jesus morreu na cruz para que nós todos lutemos para descer da cruz os oprimidos e perseguidos que até hoje continuam crucificados. Nós celebramos a crucifixão para descrucificaros crucificados de hoje.

A cruz de Jesus é esse sofrimento assumido por missão, por amor e solidariedade a todos os seres humanos, especialmente aos mais pobres. Na carta aos filipenses, o apóstolo Paulo afirma que há cristãos que se comportam como “inimigos da Cruz” (Fl 3, 18). No contexto daquela comunidade, parece que se tratava de irmãos que reduziam a vida de fé à observância da lei judaica e aos ritos religiosos e preceitos legais (Paulo chega a dizer que o deus deles é o ventre, no sentido de que eles só se preocupam com as normas alimentares judaicas – alimento kosher, etc). Atualmente, penso que temos cristãos e mesmo ministros e pastores que se comportam como inimigos da cruz de Jesus. São os que reduzem a cruz a um sacrifício religioso e não testemunham a força da Cruz como expressão do amor divino por todas as vítimas do mundo econômico e político de hoje.

Em El Salvador, o bispo São Oscar Romero celebrava a paixão de Jesus contemplando a paixão dos pobres no mundo atual. Não para dizer: são santos porque estão na cruz e assim depois de mortos vão para o céu.Não. Ele apontava que o povo estava crucificado e que a obrigação de quem tem fé é fazer tudo, o possível e o impossível para tirá-los da cruz. Por isso, ele, Romero, também foi martirizado como Jesus e agora o papa Francisco o canonizou. Pela mesma causa, aqui no Recife, em 1969, há 50 anos, o padre Antônio Henrique foi morto pelos agentes da Ditadura Militar e Dom Helder Camara foi perseguido e marginalizado durante grande parte de sua vida.

De fato, continuamos a viver em um mundo no qual imensa parte da humanidade está sendo crucificada pelo poder econômico que domina o mundo e beneficia uma minoria de menos de 5% da humanidade. Por isso, mais de um bilhão de pessoas no mundo passam fome, mais um tanto sofre carência de água potável, milhões de migrantes que não são reconhecidos como pessoas humanas. E a própria Terra, nossa casa comum, como diz o papa Francisco, está sendo crucificada e ferida pela ambição humana.

Apesar de todas as dificuldades e dos fracassos que nos sobrevêm diariamente, a nossa fé nos pede que levantemos a cabeça, renovemos a esperança e possamos descobrir a vitória pascal de Jesus ocorrendo em meio às nossas lutas interiores e morais, assim como nas lutas sociais por políticas públicas de qualidade que beneficiem a todo o povo. É a Campanha da Fraternidade desse ano. É a tradução da vitória da cruz.

O evangelho de João revela que, mesmo na Cruz, Jesus se preocupa com sua mãe ali chorando ao pé da cruz e com o discípulo amado que representa todos nós, discípulos e discípulas. E assim como Lucas revela Jesus perdoando os seus algozes e inimigos, João nos mostra Jesus nos dando o seu Espírito mesmo quando teria motivos de se sentir abandonado e meio traído pelos próprios discípulos. Essa atitude de amor não violento e paciente é o que ele pede de nós na nossa militância. Nós aprendemos desse relato da paixão que o que Deus nos pede hoje é rever e corrigir nossas atitudes de intransigência e intolerância que não nos tornam radicalmente diferentes dos nossos adversários. Quando visitei o presidente Lula na prisão, escutei dele a preocupação: “Eu quero viver a indignação que é justa diante da injustiça, mas sem ódio nem amargura no coração”. E eu lhe respondi: “É por isso que você resiste sem entrar em depressão”.

Em seu livro Jesus Libertador, o teólogo Jon Sobrino, traduz o pensamento do mártir Monsenhor Romero em El Salvador e escreve: “Toda violência, mesmo a que pode chegar a ser legítima, tem um potencial desumanizante. A violência desata uma lógica interna que termina destruindo mesmo quem a exerce. (...) Mesmo se, como última reação de defesa e para impedir um mal pior, a violência possa ser compreensível, como regra geral e método de vida e de ação, é preciso não ceder e rejeitar qualquer ato, gesto, palavra que abra a porta à violência, seja física, seja psicológica, seja simbólica. Só quando aderimos à utopia da paz e começamos a vivê-la cotidianamente no nosso modo de ser e de viver, estamos do lado de Jesus e vivendo como discípulos e discípulos dele” (Cf. Sobrino, 1992, p.316).

SEXTA-FEIRA SANTA DA PAIXÃO DO SENHOR

Neste dia, colocamo-nos ao caminho do silêncio e, como peregrinos, acompanhamos a entrega de Jesus. Vivemos em comunhão com o mundo inteiro ao aproximar-nos do grande mistério da Páscoa da Cruz.

Meditamos e refletimos a partir da proposta de oração do Passo-a-rezar: 



Nas palavras do Evangelho, João 18, 1-8; Jo 18, 19-24; Jo 18, 25-27; Jo 19, 30-34 - o tempo de oração se prolonga em cada passo de Jesus. Há encontros e desencontros, em palavras e silêncios.

Jesus saiu com os seus discípulos
para o outro lado da torrente do Cédron. Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos. Judas, que o ia entregar, conhecia também o local, porque Jesus se reunira lá muitas vezes com os discípulos. Tomando consigo uma companhia de soldados e alguns guardas, enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus, Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas. Sabendo Jesus tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-Se e perguntou-lhes:
«A quem buscais?».
Eles responderam-Lhe:
«A Jesus, o Nazareno».
Jesus disse-lhes:
«Sou Eu».

Judas, que O ia entregar, também estava com eles. Quando Jesus lhes disse: «Sou Eu», recuaram e caíram por terra. Jesus perguntou-lhes novamente:
«A quem buscais?».
Eles responderam:
«A Jesus, o Nazareno».
Disse-lhes Jesus:
«Já vos disse que sou Eu. Por isso, se é a Mim que buscais, deixai que estes se retirem».

Judas entrega-se à medida dos sonhos de um homem só, de maneira rompante e sonora. Jesus entrega-se por absoluto amor a todos os Homens, de forma silenciosa e desinstaladora.
De que são feitas as tuas ilusões?

O sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus respondeu-lhe:
«Falei abertamente ao mundo.
Sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. Porque Me interrogas? Pergunta aos que Me ouviram o que lhes disse: eles bem sabem aquilo de que lhes falei».
A estas palavras, um dos guardas que estava ali presente
deu uma bofetada a Jesus e disse-Lhe:
«É assim que respondes ao sumo sacerdote?».
Jesus respondeu-lhe:
«Se falei mal, mostra-Me em quê. Mas, se falei bem, porque Me bates?».
Então Anás mandou Jesus manietado ao sumo sacerdote Caifás.


Jesus é claro nas suas palavras. Só o interrogam aqueles que não estão dispostos à verdade e se sentem ameaçados pela sua coerência.
O que é para ti viver em verdade? Estás disposto a atravessar todas as implicações que daí resultam?


Simão Pedro continuava ali a aquecer-se. Disseram-lhe então:
«Tu não és também um dos seus discípulos?».
Ele negou, dizendo: «Não sou».
Replicou um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha:
«Então eu não te vi com Ele no jardim?».
Pedro negou novamente, e logo um galo cantou.

Pedro procura o calor reconfortante da fogueira mas o frio da solidão devora-o. Ele segue Jesus à distância por se ter deixado levar pelo medo. Desconfia e perde a esperança.
Viver unido a Deus exige uma sólida confiança que tem de ser cuidada continuamente. Pedro fraquejou naquele momento. E tu, dás a fidelidade por garantida?


Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:
«Tudo está consumado».
E, inclinando a cabeça, expirou.
Por ser a Preparação,
e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado,
– era um grande dia aquele sábado –
os judeus pediram a Pilatos
que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.
Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro,
depois ao outro que tinha sido crucificado com ele.
Ao chegarem a Jesus, vendo-o já morto,
não Lhe quebraram as pernas,
mas um dos soldados trespassou-lhe o lado com uma lança,
e logo saiu sangue e água.

Jesus deixa-Se humilhar até ao fim mas o seu amor não se esgota. Da sua morte brota sangue e água, aproximando-nos do choro da terra e dos mais pobres. Permanece, em proximidade.


Ao terminar este tempo, reze com a Oração da Sede, de D. Tolentino de Mendonça:



«Ensina-me, Senhor, a rezar a minha sede
a pedir-Te não que a arranques de mim ou a resolvas depressa
mas a amplies ainda
naquela medida que desconheço
e que apenas sei que é Tua!

Ensina-me, Senhor, a beber da própria sede de Ti,
como quem se alimenta mesmo às escuras
da frescura da nascente.

Que a sede me torne mil vezes mendigo,
me ponha enamorado e faça de mim peregrino
Que ela me obrigue a preferir a estrada à estalagem
e o aberto da confiança ao programado do cálculo.


Que esta sede se torne o mapa e viagem,
a palavra acesa e o gesto que prepara
a mesa onde partilhamos o dom.


E quando der de beber aos teus filhos seja
não porque tenha a posse da água
mas porque partilho com eles o que é a sede».

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

O SENTIDO É A DOAÇÃO DA VIDA, CARINHO E CUIDADO COM O OUTRO


Quinta-feira santa hoje... Morrer de Amor!





* Por Marcelo Barros

"O Mestre manda dizer: Quero celebrar a Páscoa na tua casa". Assim o evangelho de Mateus começa o relato da ceia de Jesus, cuja memória celebramos especialmente nesse dia. Naquele tempo, foi o recado que Jesus mandou os discípulos dizerem a um homem que passava carregando uma bilha de água. Hoje, somos nós que recebemos esse recado: O Senhor quer celebrar essa Páscoa em tua casa, na minha casa, seja a casa mais pessoal de cada um que é o corpo, a pessoa mesmo, seja a casa que é nossa vida social, nossa família, nosso país, a Terra, nossa casa comum, como diz o papa Francisco...

O que significa concretamente isso? Páscoa significa passagem, passo. Deus dá um passo para nos fazer também dar passos. Passos na nossa vida concreta. Passos de humanização e de amor. Jesus viveu isso. Em primeiro lugar, ao unir os discípulos em uma ceia de partilha e propor essa ceia como forma de sua presença entre nós. Doação da vida uns aos outros e comunhão. Infelizmente, a maioria das missas que serão celebradas hoje parecerão mais um culto qualquer, centralizado na figura do celebrante principal e de forma tão hierarquizada que não consegue mais passar a atmosfera de amor e carinho que Jesus viveu com os discípulos e discípulas na sua ceia. Oro para que as Igrejas possam retomar a simplicidade de reviver a ceia de Jesus de um modo mais simples e evangélico.

Na celebração dessa tarde, começo do Tríduo Pascal, as comunidades lerão o evangelho de João (13, 1 - 14) que conta como Jesus, ao se colocar na ceia, tomou uma toalha e lavou os pés dos discípulos (e certamente discípulas). Era uma profecia da sua entrega de vida. O evangelho usa as mesmas expressões - ele depôs a roupa - diz isso para o lava-pés e repete a mesma expressão na hora em que ia ser crucificado. E outras expressões assim.. Tem até a negação de Pedro: Nunca haverás de me lavar os pés.... Nunca irei negar que te conheço... Então, fazer esse gesto carinhoso e de serviço o mais humilde que um servo pode fazer - e Jesus fez com os seus - era uma forma de, como diz o Evangelho, "tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim", ou seja, foi até onde o amor pode ir.
Nós também somos chamados a ir até onde o amor pode ir. Viver e praticar o amor até onde o amor pode chegar.
Disponível em:




Caminhos para a Páscoa do Senhor...


1º de Abril -  Quinta-feira Santa da Ceia do Senhor.






No contexto do mundo, o Povo da Aliança continua a sua peregrinação à Terra Prometida, em busca de um novo tempo, o anseio pela vida. O desejo de uma resposta para os perigos e feridas da doença, da pobreza, do desemprego, da fome... vencer a morte!

À mesa com Jesus, recorda-se a memória do mandamento: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também» (Jo.13, 3-15).

A novidade de Jesus convida aos passos de conversão por atitudes de cuidado do outro. Em sinal de humildade, Jesus se inclinou e começou a lavar os pés de seus discípulos. Porém, os gestos e palavras do Mestre e Senhor inquietam o não saber, o não compreender da mente humana. Também hoje, essa inquietude e aflição de Jesus transparece em clamor, em meio a tantas mortes e sofrimentos. São muitas vidas perdidas, no mundo inteiro e especialmente no Brasil, 3950 mortos! Qual a semelhança desejosa da sociedade atual com a mesa partilhada com Jesus, na última ceia?

Na mesa com o Mestre encontra-se a percepção de uma travessia de esperança e do serviço. Para isso, é preciso o reconhecimento da fraternidade capaz de gerar a vida e o compromisso pelo outro. As dores e lágrimas estão presentes e, também a ternura de Deus. Jesus ensina que há uma realidade nova em aspectos de fragilidade, cuidado e declínio do interior de cada pessoa. A grandeza do amor se constrói ao contemplar e servir o outro. Em mesmo sentido, sentir que todos possuem as suas feridas a curar-se, a deixar-se cuidar.

No decorrer da ceia [...], direciona-se o olhar para a pessoa de Jesus com atenção nos gestos, ao cuidado com que Ele lava os pés aos seus discípulos. O movimento de Jesus autentica a sua missão de amor e ensina aos que querem segui-lo a fazer o mesmo, dando a centralidade da partilha, a atenção e serviço de reconstruir-se nas relações de vida, em volta à mesa da fraternidade.

Ir.Luciana, OP