Publicamos o testemunho de Luiza Helena, postulante de nossa Congregação Romana de São Domingos, Província do Brasil. Ela escreveu sobre a sua vida missionária na pastoral das pessoas em situação de rua durante esse período de pandemia.
“Parem de nos matar”... Súplica de um morador em situação de rua. Ao lermos essa frase, logo sentimos a dor com que esse morador expressa a sua tristeza, mas não percebemos que também nós os matamos, todas às vezes, que passamos ao lado de todas as pessoas que se encontram nessa situação e os tratamos como invisíveis ou quando olhamos indiferentes? Falta-nos compaixão. Somos muito bom juízes, quando sem ao menos ouvi-los o julgamos, não respeitamos as suas escolhas, quando os nossos olhos não enxergam a dor, que existe atrás de cada face"...
Estamos também vivendo muitos desafios... Mais de 90 mil pessoas mortas em todo o
país segundo o dado oficial do Ministério da Saúde. No entanto, o número é superior aos
informados pela mídia. Entre as pessoas mortas há vários religiosas/os, amigas/os e conhecidos. A nossa força tarefa de rezar é contínua. Alguns Estados e Cidades foram liberadas para as atividades cotidianas, mas toda prudência ainda é necessária.
Desde o dia 26 de fevereiro, quando foi confirmado o
primeiro caso de COVID-19 no Brasil, passamos a acordar
todos os dias assombrados pela incertezas. O número de
mortos não param de crescer, já passamos de 70.000 mil...
Número que nos assusta e nos apavora demais. O que no
começo imaginávamos estar bem longe passa a estar ao
nosso lado.
Confiar, se tornou a única opção e a única palavra capaz de expressar todos os
sentimentos, que estão dentro de cada um de nós. Aperta o coração quando temos
vontade de pedir um abraço e não podemos, pois temos a consciência que o
distanciamento social neste momento é essencial: - Salva vidas! Em muitos
momentos nos faltam palavras para encorajar ou afirmar que vai ficar tudo bem,
sendo que em alguns momentos nem mesmo em nossos corações há essa certeza. O
choro já virou rotina diante dos nossos olhos. O silenciamento se tornou necessário,
quase imposição. Mas há indignação! Essa companheira está sempre presente em
nossas manifestações contra um governo, que parece não se importar com as pessoas,
principalmente, àquelas que não têm voz e nem vez nessa sociedade em que vivemos
tão capitalista.
Tenho medo! E como não ter? Tenho medo por todos aqueles que insistem em
não acreditar que vidas estão sendo perdidas, que há milhares de famílias que hoje
choram por seus entes queridos. Tenho medo por todas as pessoas mais vulneráveis,
que são atingidos não só pelo vírus, mas também pela consequência do mesmo. O
desemprego que já era uma realidade diária se tornou ainda maior depois do começo
da pandemia. Para somar tantas desigualdades junto ao desemprego vieram a fome, a
depressão e o aumento de pessoas morando em situação de rua. É como se
estivéssemos tentando ficar em pé, em um cenário que está totalmente de cabeça para
baixo.
A pastoral do Povo da Rua, que nesse tempo de pandemia se mostrou sempre
em movimento, instalou no dia 11 de junho um novo desafio, um projeto realizado na
Serraria Souza Pinto. Neste espaço, que funciona de domingo a domingo com ajuda
de técnicos e muitos voluntários, os moradores em situação de rua têm a
oportunidade de tomar um lanche, ter atendimento social em que experimentam um
ambiente de fala e escuta. Aproximam-se da humanidade e de valores, que pareciam
já não existirem mais na realidade em que vivem cotidianamente. Alheios à sua
própria identidade pessoal conseguem também adquirir, novamente, os seus
documentos, têm acesso a doações de roupas e a chance de tomarem um banho bem
quentinho. O que para muitos é banal para a população do povo em situação de rua é
DIGNIDADE. Passam pela Serraria mais de 350 pessoas por dia, entre crianças,
adolescentes, jovens, adultos e idosos. De lá saem com o desejo de retornar no dia
seguinte. Vejo no rosto e nas palavras a gratidão de cada morador que passa pelo
local. Tudo isso nos impulsiona romper com os muitos medos. Não me sinto satisfeita
com os poderes públicos pelo descaso com a vida humana. É muita invisibilidade
conferida à dores humanas.
“Parem de nos matar”... Súplica de um morador em situação de rua.
Ao lermos essa frase, logo sentimos a dor com que esse morador expressa a sua
tristeza, mas não percebemos que também nós os matamos, todas às vezes, que
passamos ao lado de todas as pessoas que se encontram nessa situação e os tratamos
como invisíveis ou quando olhamos indiferentes? Falta-nos compaixão. Somos muito
bom juízes, quando sem ao menos ouvi-los o julgamos, não respeitamos as suas
escolhas, quando os nossos olhos não enxergam a dor, que existe atrás de cada face.
Ainda pela Pastoral do povo de Rua aos sábados pela manhã saímos para
entregar pão e toddy. Enquanto entregamos o café conseguimos ter um contato maior
com muitos deles. Aumenta em nós o sentimento de insatisfação ao nos depararmos
com o os lábios ressecados e pés rachados, feridos que conseguem retratar como é
dura a realidade de quem mora na rua. Fica sempre em nós o desejo de querer fazer
mais. Respeitamos as escolhas e acolhemos cada um da maneira que eles são.
É muito bacana vivenciar essa experiência com tantas outras pessoas que se
dispõem a estar ali e doar um pouco do tempo para ajudar o próximo. Que Deus
abençoe todo essa situação, que nós estamos enfrentando com fé. O mais importante
mesmo é a nossa confiança no tempo que é só Dele.
Desejo a todos muita paz, amor e confiança no coração.
Enfrentemos juntas, essa pandemia.
Sintam-se abraçados neste momento.
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